quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Dez princípios da retórica conspiracionista



Ainda que visando alvos bastante distintos, os discursos conspiracionistas apresentam uma grande constância. Eles resultam de uma mecânica intelectual da qual é possível extrair os principais fundamentos
por Benoît Bréville


1. Nunca falar de conspiração
“Nesta Revolução Francesa, tudo, até seus planos mais espantosos, tudo foi previsto, meditado, combinado, resolvido, estabelecido; tudo foi [...] organizado por homens que tinham sozinhos o fio das conspirações havia muito elaboradas nas sociedades secretas e que souberam escolher e aguardar os momentos propícios para o complô.” No final do século XVIII, quando o abade Augustin de Barruel escreveu essas linhas, aqueles que viam complôs por toda parte avançavam com o rosto à mostra. Eles falavam de conspiração, sociedades secretas, planos escusos. Hoje, o vocabulário mudou. “Acho que essa palavra [conspiração] nunca foi utilizada em meu livro. Na verdade, eu falo de ‘projeto de dominação’, de ‘rede de dominação’”, explicou Alain Soral, em 23 de março de 2011 na rádio RFI. Como seus aliados Dieudonné e Thierry Meyssan – dois outros pontas de lança do conspiracionismo francês –, ele alega principalmente que desconfia das “versões oficiais” e propõe “informações alternativas”. O site Stop Mensonges [Stop Mentiras] tem como lema “A verdade nos libertará”; para o WikiStrike, “nada, nem ninguém, é superior à verdade”. Já o ultracatólico Médias-Presse-Info se apresenta como “uma mídia original que visa à vulgarização da informação de uma maneira deliberadamente objetiva, livre e sem concessão”. Quem poderia censurar?

2. Julgar-se vanguarda
“Falemos claramente: eu não acredito na versão oficial que as mídias nos apresentam repetidamente”, orgulha-se um colaborador do Médias-Presse-Info.1 Essa dúvida permanente provoca a impressão agradável de pertencer a uma vanguarda esclarecida, de estar entre aqueles que não são enganados. “Admitir que algo não está funcionando na tese oficial, compreender o modo como evidentemente ela foi fabricada, é um trabalho [sobre si] que muitas pessoas não são capazes de fazer, que a maioria não é capaz de fazer”, explica, satisfeito de si, o ator Mathieu Kassovitz em um vídeo postado na internet na ocasião do décimo aniversário do 11 de Setembro. Esse sentimento de superioridade encontra-se também no administrador do site Stop Mensonges, um “francês que mora nos Estados Unidos”: “Desde que tive acesso à língua inglesa, não paro de descobrir informações na internet que até então me eram inacessíveis em francês. Essas informações são, para a maioria das pessoas, ‘inacreditáveis’, de difícil acesso para nosso cérebro condicionado desde o nascimento pelas mídias oficiais, a educação tradicional”. Esse prazer de fazer parte de um grupo de iniciados, a convicção de dispor de informações reservadas a um pequeno número, de se distanciar do rebanho, contribui para a atração exercida pelas teorias da conspiração.


3. Basear-se na ciência e na razão
O poder de sedução dessas teorias reside também em sua aparência científica e racional. Os textos conspiracionistas transbordam de notas de rodapé, de links de hipertexto, de gráficos que lhes conferem uma forma pseudouniversitária. O artigo consagrado à “queda mágica da torre WTC 7” no site ReOpen911 constitui um modelo do gênero. Planos em três dimensões, fotografias aéreas, vídeos austeros e técnicos (dos quais um dura mais de duas horas), um estudo de um “ex-pesquisador do CNRS de geologia-geofísica e especialista em ondas acústicas” ou ainda um “documento de síntese produzido por arquitetos e engenheiros” que demonstram que a queda do prédio se deve a uma operação de demolição programada. Por trás dessa máscara de sabedoria se encontra na verdade um circuito de informações fechado, no qual sites conspiracionistas direcionam para outros conspiracionistas, depois para livros publicados por editoras conspiracionistas (como a Demi Lune, na França) e para trabalhos de “pesquisadores” marginalizados e controversos no meio universitário. Esse funcionamento é patente no site do Réseau Voltaire [Rede Voltaire], no qual Meyssan se autocita ao longo dos artigos.

4. Perguntar: quem lucra com o crime?
“Quem realmente cometeu esse ataque?”, pergunta o site de Dieudonné, Quenel Plus, a respeito dos atentados ao Charlie Hebdo. “Quem o patrocinou? Quem lucra com o crime?”2Ao permitir designar um responsável para cada acontecimento, essa última questão está na origem de todas as teorias da conspiração. A cota de popularidade de François Hollande conheceu um grande crescimento depois das matanças dos dias 7 e 9 de janeiro de 2015 em Paris? Não é preciso mais nada para que o Médias-Presse-Info atribua insidiosamente a paternidade do acontecimento ao presidente francês: “Esse atentado foi arquitetado por serviços secretos?”, questiona uma colaboradora. “Existem, é fato, diversos elementos perturbadores [...]. Hollande soube tirar proveito com uma prontidão notável do efeito desse atentado, pelo qual, sem ter melhorado em nada a situação econômica ou social da França, ele registrou um salto prodigioso nas pesquisas... Fazer a pergunta ‘Quem lucra com o crime?’ é encontrar a resposta.”3 Segundo Meyssan, o atentado beneficia mais Washington, que visa à progressão do racismo antimuçulmanos para colocar em ação seu plano de dominação do Oriente Médio. “Os patrocinadores dos atentados contra o Charlie Hebdo não procuraram satisfazer jihadistas ou talibãs, mas neoconservadores e falcões liberais”, afirmava desde 7 de janeiro de 2015. E Quenel Plus descobriu outro suspeito: o site considera “completamente plausível” a teoria de um antigo general russo segundo a qual “o ataque terrorista realizado na França é obra de mercenários recrutados pelos Estados Unidos e Israel, cujo objetivo é destruir a imagem do islã”.4 Na verdade, se a questão “Quem lucra com o crime?” pode ser útil para decifrar alguns acontecimentos, ela nunca permite designar com segurança os responsáveis. O assassinato do presidente francês Sadi Carnot em 1894 permitiu que Jean Casimir-Perier chegasse ao Elysée. Ele, no entanto, ordenou a ação do anarquista italiano Sante Geronimo Caserio? A Primeira Guerra Mundial tornou a Revolução Bolchevique possível; deve-se então deduzir que um comunista cometeu o atentado de Sarajevo?

5. Pesquisar “detalhes perturbadores”
Uma vez que o culpado é designado, os adeptos da teoria da conspiração procuram todos os “detalhes perturbadores” e as “anomalias” que permitam contestar a versão oficial e construir uma máquina de convencimento concorrente. Se alguns argumentos relativos ao desmoronamento das torres do World Trade Center, por exemplo, necessitam da mobilização de conhecimentos específicos para serem contraditos, outros parecem absurdos à primeira vista. “Membros ou simpatizantes da Irmandade Muçulmana, da Al-Qaeda ou do Daesh não teriam se contentado em matar desenhistas ateus; eles teriam primeiro destruído os arquivos do jornal diante de seus olhos”, aponta assim Meyssan para apoiar a ideia de que a missão dos irmãos Kouachi “não tem ligação com a ideologia islamita”. O essencial reside menos na solidez dos argumentos do que em seu número. Alguns meses depois das matanças de Toulouse e de Montauban, perpetradas em março de 2012, Hicham Hamza fazia um inventário no site Oumma.com das “72 anomalias do caso Mohamed Merah”;5 “Como Mohamed Merah encontrou um colete à prova de balas da polícia, de tamanho ‘gendarmette’ [feminino] e adaptado à sua silhueta fina?”; “Porque Merah teria desejado matar um militar que ele apreciava?”; “Quem transmitiu a foto do cadáver de Merah para a revista Entrevue?” etc. Tomadas individualmente, cada uma das questões provoca uma resposta simples, mas o efeito de acumulação semeia a dúvida.

6. Recusar o acaso
A fim de reunir o maior número de detalhes perturbadores, é preciso considerar que o acaso não existe, que todo fato é significativo. A concomitância de dois acontecimentos é então sempre interpretada em termos de causalidade. É assim que o suicídio, em 8 de janeiro de 2015, do segundo homem mais importante da polícia de Limoges, que acabara de ser encarregado de uma missão dentro do caso do atentado ao Charlie Hebdo, se tornou um “elemento perturbador”. Os conspiracionistas também são semiologistas sem par. Se um triângulo figura numa nota de banco ou num maço de cigarros, eles veem nisso, às vezes, o traço dos membros da maçonaria. O princípio é antigo: alguns anos depois da Revolução Francesa, já era aos maçons que o abade Barruel atribuía a forma triangular da lâmina da guilhotina. E isso também funciona para a estrela judaica. Louis Farrakhan, o dirigente da organização religiosa norte-americana Nation of Islam, explica que as treze estrelas apresentadas nas notas verdes formam, se as religamos, os contornos da estrela de Davi. Esse pequeno jogo que consiste em procurar a assinatura do assassino, obrigatoriamente deixada nos locais do crime, também possui uma variante numerológica. Segundo um artigo do WikiStrike, os ataques contra o World Trade Center aconteceram em 11 de setembro, quer dizer, em 9/11 ou 911,6 como o número de telefone da polícia nos Estados Unidos; os ataques contra o Charlie aconteceram em 7 de janeiro, ou seja, 1.7, ou 17, como o número da polícia francesa. Mais um “detalhe perturbador”...

7. Apoiar-se na história
A história é frequentemente utilizada para apoiar teorias da conspiração e serve para comparar acontecimentos muito diferentes. As operações sob falsas bandeiras, numerosas na história, são mecanicamente utilizadas para provar a culpa dos serviços secretos franceses, norte-americanos ou israelenses nas ações terroristas atuais. “Não vamos esquecer os precedentes históricos”, advertiu Meyssan a respeito dos ataques contra o Charlie Hebdo, antes de ressaltar que “ao longo dos últimos anos vimos os serviços secretos norte-americanos ou da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]: testar na França os efeitos devastadores de algumas drogas em populações civis; apoiar a OAS [Organização Armada Secreta] para tentar assassinar o general De Gaulle; proceder a atentados sob falsas bandeiras contra civis em diversos Estados-membros da Otan”.
O caso dos testes de droga se refere a acontecimentos do verão de 1951, quando dezenas de habitantes de Pont-Saint-Esprit, um vilarejo da região de Gard, tiveram dor de barriga, náuseas, mal-estar e até mesmo alucinações. Meio século depois, o enigma ainda não foi esclarecido, ainda que uma pista sólida – uma intoxicação alimentar coletiva devido a um fungo (esporão-do-centeio) – se destacasse. Em 2009, um jornalista norte-americano que investigava o suicídio de um agente da CIA em 1953 afirmou ter encontrado a solução. Baseando-se no testemunho de dois antigos agentes secretos e em um vago documento da CIA que fazia referência ao incidente de Pont-Saint-Esprit, ele atribuiu os mal-estares a uma operação da agência. Esta teria disseminado LSD em grande escala para testar seus efeitos como arma ofensiva. Ainda que a maioria dos especialistas continue inclinada a dizer que foi o fungo, é impossível refutar definitivamente essa outra hipótese, acrescentando-se assim uma segunda camada da teoria da conspiração à primeira.

8. Nunca subestimar o inimigo
Os adeptos das teorias da conspiração partilham uma crença na infalibilidade de seus inimigos. Segundo eles, é impossível que um punhado de indivíduos socados em uma caverna no Afeganistão tenham podido, sozinhos, destruir o World Trade Center: com desempenho extraordinário, os serviços secretos norte-americanos deveriam tê-los impedido. “À luz dos procedimentos habituais a respeito dos aviões desviados, nem um desses aviões sequer deveria ter atingido o alvo, muito menos três deles”, escreveu David Ray Griffin em Le Nouveau Pearl Harbor [O novo Pearl Harbor] (Demi Lune, 2006). Mesmo raciocínio de Soral, em seu site, a respeito dos irmãos Kouachi: “Uma vontade autêntica de desmantelamento das redes islamitas deveria ter conduzido nossas forças especiais – que possuem amplamente os meios para isso – a fazer de tudo para prendê-los vivos, a fim de fazê-los falar...”.
No entanto, acontece frequentemente de a polícia ou o Exército falharem. Ainda que tenha sido habilmente preparada, a operação Eagle Claw, destinada a libertar, em abril de 1980, os reféns detidos na embaixada norte-americana em Teerã, fracassou lamentavelmente por causa de uma tempestade de areia, problemas materiais e falta de helicópteros. Alguns meses depois, um homem sozinho, John Hinckley Jr., conseguiu enganar a vigilância dos serviços de proteção de Ronald Reagan, atirando seis balas de revólver no presidente dos Estados Unidos. Em outubro de 1983, em Beirute, em plena Guerra do Líbano, dois atentados quase simultâneos mataram cerca de trezentos militares norte-americanos e franceses. No jogo das analogias históricas, por que não comparar os fracassos que conduziram aos atentados de 11 de setembro ou de 7 de janeiro de 2015 com esses precedentes?

9. Nunca superestimar o inimigo
Se os conspiracionistas estão convencidos de que seus inimigos são muito poderosos para serem pegos de surpresa, eles, paradoxalmente, não param de atribuir a eles erros de principiante. Por exemplo, segundo certas teorias, nenhum astronauta teria pisado na Lua em 1969; as imagens teriam sido fabricadas pelos Estados Unidos para impressionar a URSS. A prova: não há estrelas no céu nas fotografias de Neil Armstrong. Os norte-americanos teriam então sido capazes de enganar todo o planeta com uma falsa aterrissagem, mas seriam bestas o suficiente a ponto de se esquecer de colocar algumas estrelas no seu céu falso...
O mesmo paradoxo existe nas teorias da conspiração mais recentes. A carteira de identidade do mais velho dos irmãos Kouachi foi encontrada em um carro abandonado em Paris. Esse esquecimento tão grande logo é considerado inverossímil: a polícia teria colocado o documento ali, para incriminar os dois homens. Mas, a fim de não levantar suspeitas, uma polícia eficiente não teria utilizado falsos traços de DNA?

10. Recusar a contradição
Uma teoria da conspiração deve enfim ser hermética à contradição. Desde 1969, alguns duvidaram da aterrissagem dos norte-americanos na Lua. Explicações foram rapidamente apresentadas para seus questionamentos: a bandeira flutuava na ausência de vento porque dispunha de uma armação; um efeito de perspectiva explicava o aspecto não paralelo das sombras no chão; a ausência de estrelas decorria da regulação necessária da máquina fotográfica etc. No entanto, mais de cinquenta anos depois, dezenas de sites e livros continuam levantando dúvidas sobre o acontecimento, apresentando as mesmas “provas”. Para nunca ser abalado por um contra-argumento, basta desqualificar a fonte. A Nasa defende que a bandeira tinha uma estrutura? Ela está mentindo, porque está de conluio com a CIA. Testemunhas afirmam ter visto um avião atingir o Pentágono? Normal, eles estão a serviço do governo norte-americano. Também é possível simplesmente ignorar as contraprovas. Depois do 11 de Setembro, muitos céticos destacaram o fato de que o governo norte-americano ocultava gravações de vozes feitas no avião que explodiu na Pensilvânia. A administração Bush acabou autorizando que as famílias das vítimas escutassem essas gravações. No entanto, nota Charles Pidgen, nenhum conspiracionista fez a reparação.7 De qualquer forma, as “provas” reunidas são tão numerosas que a invalidação de uma delas não poderia colocar em perigo o edifício global.

Benoît Bréville
Jornalista e integra a redação do Le Monde Diplomatique França


Ilustração: Odyr

    Louis Lorphelin, “Charlie Hebdo: posons-nous les vraies questions” [Charlie Hebdo: façamos as perguntas certas], Médias-Presse-Info, 10 jan. 2015.
2  “Terrorisme semi-professionnel ou leurre?” [Terrorismo semiprofissional ou isca?], Quenelplus.com, 8 jan. 2015.
3  Émilie Defresne, “‘Je ne suis pas Charlie’, manifestation monstre en Tchétchénie” [“Eu não sou Charlie”, manifestação monstro na Chechênia], Médias-Presse-Info, 19 jan. 2015.
4  “Pour le général Ivachov, ‘l’attentat à Charlie Hebdo est l’œuvre de mercenaires’” [Para o general Ivachov, “o atentado ao Charlie Hebdo foi obra de mercenários”], Quenelplus.com, 8 jan. 2015.
5  Hicham Hamza, “Les 72 anomalies de l’affaire Mohamed Merah” [As 72 anomalias do caso Mohamed Merah], Oumma.com, 25 jul. 2012.
6  Em inglês, a escrita numérica das datas impõe que se coloque o mês antes do dia.
7          Charles Pidgen, “Une superstition moderne: la fausseté en soi des théories de la conspiration” [Uma superstição moderna: a falsidade das teorias da conspiração], Agone, n.47, Marselha, 2012.

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