quinta-feira, 24 de julho de 2014

Como entender o significado de " cachorrinhos" na passagem de Mateus 15,25-27?




Mateus 15,25 -27 conta a cura, por parte de Jesus, da filha de uma siro-fenícia (veja o texto abaixo), ou seja, de uma pessoa pagã, não pertencente à fé judaica. A mulher insiste para que Jesus cure a filha, endemoniada. Jesus, que está no território de Tiro (e de sidônia), atualmente cidades libaneses e que não estavam dentro dos confins da terra prometida, de Israel, responde à mulher: Deixa que primeiro se fartem os filhos; porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. (Em Mateus, onde aparece o mesmo episódio, Jesus diz: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (...) Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-los aos cachorrinhos (Mateus 15,24.26). A mulher insiste com Jesus dizendo: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas dos filhos. Diante da palavra desta mulher Jesus a manda para casa, dizendo que a filha estava curada. E de fato, voltando à casa, a mulher pagã encontrou a filha livre do demônio.

É um texto muito interessante. O aspecto fundamental deste episódio é a relação de Jesus – e do cristianismo – com os pagãos, ou seja, as pessoas que não pertenciam ao povo judeu e que, em princípio, não acreditavam em YHWH, o Deus de Israel. Os pagãos (goyim, em hebraico) eram vistos pelos judeus como pecadores, idólatras e que encarnavam a impureza (Esdras 6,21). Por isso eram considerados inimigos de Deus e do seu povo (Salmos 79,1-10; Jeremias 10,25). De fato é Israel que é o povo escolhido, o povo da revelação; a ele é dada a presença de Deus (Números 14,14).

Jesus, sendo filho do seu povo, da sua época, participava desta visão. Essa narração (e também a cura do filho do centurião romano – Mateus 8,5 seguintes; Lucas 7,1ss), contudo, mostra que não ficou passível diante de tal contexto. Poderíamos dizer que a insistência e as palavras da mulher pagã, neste nosso texto, “ensinaram” a Jesus, abriram seus olhos e fizeram com que entendesse que também os pagãos deveriam participar da sua obra salvífica.
Este conflito reflete também a situação da primeira comunidade cristã. Alguns, na Igreja primitiva, pensavam que a mensagem cristã devia ficar restrita ao território de Israel ou aos judeus (veja a polêmica no Concílio de Jerusalém – Atos dos Apóstolos 15). Mas a consequência direta da morte e ressurreição de Jesus é o mandamento da missão universal (Mateus 28,16-20: Ide, fazei discípulos de todas as nações.... Fator decisivo nesta empresa foi o apóstolo Paulo, apóstolo dos pagãos (gentios). Logo depois da sua chamada, teve certeza que o Senhor lhe tivesse dado a missão de anunciar o evangelho entre os povos (Gálatas 1,16; Atos 26,17); a Pedro tinha sido confiada a evangelização dos circuncidados e a Paulo a mesma missão junto aos incircuncidados (Gálatas 2,8).

Portanto, chegando à conclusão, acredito que lendo esse texto devemos ter em mente alguns aspectos:

* A fé da mulher pagã consegue ‘chacoalhar’ as convicções de Jesus e do cristianismo nascente.

* A salvação oferecida por Jesus não tem limites de fronteiras ou povos.


*A humildade e a fé de pessoas como a mulher cananeia, o centurião de Cafarnaum, entre outros, foi o que "tocou" o coração do Mestre a respeito de sermos considerados "dignos" de sua misericórdia.

*Nós gentios (como éramos chamados), Simbolizamos os "cachorrinhos", pois Jesus veio para o povo de Israel, mas este não o reconheceu, mas nós, tivemos fé no mestre, cremos que Ele era o Messias, o Cristo. E assim, Ele nos amou, e nos deu sua vida como pagamento de nossas dívidas nos dando assim o direito de Salvação. Não me envergonho de ser "cachorrinho, ou vermezinho de Jacó", me envergonharia se fosse ateu, se fosse hipócrita ou mentiroso. Sou Co herdeiro de Cristo, amigo do Mestre, Filho de Deus. 

Paula Jordem


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